domingo, 25 de março de 2007

A PRIMEIRA VEZ (Não! Não é aquilo que vocês estarão, eventualmente, a pensar)



Muita gente questionar-se-á porque razão aparento tamanha desconfiança e antipatia pelos “auto-designados” colectivos lgbt.
No post anterior já expliquei as experiências mais ou menos “traumáticas” que tive, ao testar “in vitro” estes colectivos. Mas tenho de confessar que já ia um bocadinho de pé atrás (e assim continuo, com bastantes razões, como se pode confirmar) devido a um programa do Artur Albarran, na TVI, talvez em 1992 ou 93, em que, entre outros representantes do grupo social lgbt, participaram o sr. Guilherme de Melo, um tal sr. José Carlos (do Grupo de Trabalho Homossexual), aquele sr. que é dono do bar 106, o “travesti” (era assim que lhe chamavam na altura) Ruth Bryden (a sra. da foto que ilustra este post) e - pela primeira vez em televisão - uma sra. lésbica cujo nome não recordo.
O dito programa era assim a modos que um tribunal, com um público sentado numa espécie de anfiteatro, havendo no fim uma votação para saber se a “homossexualidade (e seus corolários) era um assunto a ser debatido ou compreendido” (ou coisa que o valha).
As coisas não correram lá muito bem e nem vou detalhar muito. Vou apenas referir que o sr. Guilherme de Melo (durante anos o único gay capaz de assumir a sua homossexualidade em Portugal), bem se esforçou, como era seu costume, por contar episódios da sua vida de uma forma mais ou menos cativante para o público, dizendo, p. ex, que, na sua adolescência e juventude, quando ia ao cinema com amigos e amigas, apetecia-lhe colocar a mãozinha marota na mão ou na perna (ou noutras partes) dos amigos em vez de fazer o mesmo com as amigas; que não via utilidade nos colectivos lgbt, etc. No entanto, não conseguiu receber mais do que olhares de repulsa por parte da assistência.
O sr. José Carlos resolveu dizer que até nem era maltratado por ser gay - deve ser mais um desses que consegue andar camuflado e que é tão invejado pelas “bichas”, por causa disso... – mas que gostaria de poder acariciar ou beijar publicamente o seu namorado, sem ser discriminado ou insultado por isso.
A sra. lésbica também lá disse, de sua justiça, os chavões do costume (não era discriminada, queria o mesmo que o sr. José Carlos, etc.), mas essa teve direito aos olhares mais ou menos malandrecos dos homens (hetero) presentes
E o “circo pegou fogo” quando foi chamada a intervir a sra. Ruth Bryden. Ainda nem tinha começado a falar e já o sr. José Carlos começara a torcer o nariz e a pôr cara de nojo ao olhar para ela. Sem papas na língua afirmou que sempre fora constantemente insultadO, humilhadO e discriminadO pela sua aparência, quando se apresentava como homem, mas que após decidir apresentar-se como mulher, as coisas tinham mudado completamente de figura e que passara a ser tratadA com “normalidade”.
O público olhava-a com um misto de curiosidade (mórbida?), compaixão (hipócrita?) e, curiosamente, sem aversão. Mas o que me chocou foi o nervosismo e os ataques do sr. José Carlos que começou a contestar e a pôr em duvida tudo o que a sra. Bryden afirmava, tratando-a por “tu isto, tu aquilo”, enquanto a todos os outros membros do painel lgbt tratara sempre por você.
A certa altura, aquele sr. do bar 106 tomou da palavra, sem autorização de nada nem de ninguém, e resolveu perguntar-lhe algo como: “se não acreditas que a Ruth é discriminada então porque estás a tratá-la por tu, enquanto a todos os outros tratas por você?”, o que recebeu muitos ahhs de aprovação da assistência. Garanto que fiquei de queixo caído, principalmente, por esta “defesa” ter vindo de um desses gays marialvas, rústico e entroncado, sempre de perna bem aberta, firmemente plantada no solo (para dar um ar mais macho). Mas o que posso dizer? A vida é feita de surpresas e temos que estar abertos a tudo.
Antes de continuar, vou advertir @s
incaut@s leitor@s que podem parar com esses risinhos sacanas, por causa desta do “temos que estar abertos a tudo”, porque isto é um blog de gente séria e não um desses blogs (um em especial...) cujo apanágio são as descaradas e provocatórias exibições de carnes. Portanto comportem-se!
Mas continuando, lembro-me que o programa acabou com os srs. José Carlos e Guilherme de Melo a olharem de forma consternada e dasaprovadora para a sra. Ruth Bryden, como se fosse ela a responsável pela discriminação que sofrem as minorias sexuais, e de me ter ido deitar a pensar: “Imagina! Afinal a discriminação maior não partiu dos heteros, mas sim dos gays e ainda por cima de um activista. Estamos bem arranjados, se são estes sacanas que defendem os nossos direitos”.
Ao fim de 14, 15 anos entristece-me ver que tudo continua na mesma, apenas tendo mudado as vítimas (que passaram a ser as bichas e os gays mais fracos), apesar dos tempos difíceis que se avizinham e a que dedicarei o próximo post.

1 comentário:

Anónimo disse...

Gostei. Boa memória.